Um dia você pode vir a ser um bom jornalista, mas antes de isso acontecer muita água suja passará por baixo dessa ponte imaginária que balança com o vento.
Dirão que você não é capaz; duvidarão da sua capacidade; rirão de seus erros bobos de português. Tentarão te enganar e fazer com que você desista ao bater de frente com o primeiro obstáculo, mas você continuará de pé.
Você errará números, nomes, datas, lugares e receberá e-mails e telefonemas de pessoas raivosas que cobrarão satisfações e soluções. Tentarão te vender furos desinteressantes como algo inovador, a nova do momento mas só naquele momento e interessante apenas a uma única pessoa, o vendedor.
Você receberá críticas; chutarão seus sonhos e diminuirão você a nada. Tentarão dominar as suas entrevistas e determinar o que você deve escrever e como deve fazer. Modificarão suas idéias, seus pensamentos, seus escritos. Farão com que você pense em desistir uma, duas, três um milhão de vezes, mas você continuará seguindo em frente.
Você se sentirá esgotado, triste, doente, derrotado, arrasado e pensará em jogar tudo para o auto diversas vezes. Você se trancará sozinho no banheiro de seu estágio e deixará que suas lágrimas caiam em silêncio sem que ninguém note, depois sorrirá para mais uma entrevista como se nada tivesse acontecido.
Se assustará ao descobrir que a sua profissão é considerada a quinta mais estressante do mundo e pensará em voltar atrás e se candidatar a vereador de seu bairro para ter uma carreira tranqüila e bem sucedida na política. Você desejará coisas que seu salário não poderá pagar, vai se frustrar e mais uma vez se arrepender, mas continuará caminhando.
Você irá abrir mão de seus fins de semana, seus feriados, as festas de família, os aniversários de seus sobrinhos, o porre com os amigos, o cinema, as sextas feiras com seu (a) namorado (a) e viverá uma vida de limitações e privações.
Seus colegas passarão você pra trás na primeira oportunidade. Você se sentirá o rei da noite, mas na verdade não terá nenhum amigo. As pessoas se aproximarão de você interessadas apenas no que você poderá oferecer, da mesma forma, muitas se afastarão, você será má influencia, marginal das palavras.
Mas um dia algumas coisas mudam, o tempo vai passar, você vai ganhar espaço, será disputado, requisitado, contratado. Os jornais brigarão para ter uma coluna assinada por você. Seu salário irá aumentar, o caro entra e o velho barato sai pela janela. Você agora é importante, é um dos que dita as regras, o rei do mundo, nada de privações. Viva! O estresse diminuiu.
Chegou a liberdade, é hora de escrever cultura. Para essa semana, temos uma pauta de comportamento com o presidente, que tal? É, você finalmente chegou lá, a Globo te quer a frente do fantástico. É isso aí! Você é a referência da vez, o paradigma a ser seguido.
Chegou a hora de negar os pedidos dos estudantes e dos estagiários chatos, que querem entrevistas idiotas para matérias bobas que irá compor os jornais laboratório de sua faculdade. “Como é ser um grande jornalista? Como foi o caminho até chegar onde você se encontra atualmente? Que conselho você daria para quem deseja ser um jornalista bem-sucedido?” Você rirá e pensará: “ são sempre as mesmas perguntas”. Se servirá de mais uma dose de wiske caro e fechará seu notebook dizendo: otários!


